O Minimalismo da Cachaça

Bebida destilada com graduação alcoólica entre 38 e 48%, o mais usual é que seja apreciada pura, natural ou gelada. Para acompanhar, torresmo, queijos, carnes, embutidos, tudo vai bem com ela. Aqui no Nordeste é hábito frutas como acompanhamento. Seja qual for a preferência de cada um, o fato é que, cachaça deve ser tomada em pequenos e pausados goles, ou bicadas como se costuma falar popularmente, apreciando seu aroma e sabor. O tira gosto segue o mesmo padrão: uma lasquinha de queijo, um pequeno pedaço de abacaxi, um fiapo de carne. O apreciador de cachaça é minimalista. Ele não quer encher a barriga, quer alimentar o espírito.

Comparada à provas de atletismo, a cachaça seria uma maratona, ou seja, devagar e sempre, diferente da cerveja, que considero uma 100 metros raso, consumida rapidamente (senão esquenta) e em grande volume, logo encharcando o estômago.

Assim, o bom bebedor de cachaça segue tranquilo em seu ritual, e está sempre pronto a esticar um assunto, a tomar mais uma saideira e a uma nova amizade conquistada ali mesmo, no balcão do bar. À sua frente o seguinte cenário resume seu mundo: uma garrafa de água mineral, sua dose, um guardanapo de papel com um pedaço de tira gosto, caneta ou lápis para eventuais anotações. Um universo mínimo, enxuto, sem desperdícios nem supérfluos. Um exemplo a ser seguido na vida cotidiana.

Com o passar das horas, parceiros apreciadores de cerveja começam suas idas ao banheiro, cada vez mais frequentes; os bebedores de uísque passam a por mais gelo nas doses e a beber mais rapidamente, como se cerveja fossem. E vão ficando pelo caminho, enquanto nossos maratonistas, os bebedores de cachaça, continuam impassíveis, gole após gole, hora após hora.

A decisão do momento de parar deve ser particular e voluntária, e não causada por fatores externos ao estrito ato de beber, nem influenciada pelo relógio da parede do bar. Interromper o ritual natural de doses, papos e lasquinhas de tira gotos é frustrante, e pode causar grandes traumas, algo comparável a romper um amor sem que ele tenha se extinguido de fato. Na hora de bater em retirada, o “maratonista” ainda deve estar inteiro, estômago pronto para receber uma boa refeição e um último trago, por que ninguém é de ferro.

Autor: Altino Farias.

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